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Manaus, 21 de outubro de 2018

Como é viver na cidade mais pobre do Brasil?

No Rio de Janeiro, a diária de uma faxineira pode variar de R$ 150 a R$ 200. Em Marajá do Sena, município maranhense com a pior renda no Brasil, R$ 200 é o que a dona de casa Eva Gonçalves da Silva, de 37 anos, ganha por mês lavando roupa para fora. Mãe de três filhos, de 6, 9 e 15 anos, ela vive de bicos, assim como o marido, que cava poços artesianos e “trabalha na juquira”. Juquira é o mato que cresce no campo e que é capinado para o gado pastar. Nenhum dos dois jamais teve emprego. A única renda mensal são os R$ 165 que ganham de Bolsa-Família pelos três filhos matriculados na escola.

“Em alguns meses, só conseguimos R$ 200 extras. Só dá mesmo para comprar a comida”, conta Eva. Nesses meses, a renda mensal per capita na família representa R$ 72 mensais, abaixo dos R$ 96,25 registrados em média no município, ou R$ 2,4 por dia. O valor é menor que o recorte da linha de pobreza extrema internacional calculada pelo Banco Mundial a partir dos indicadores dos 15 países mais pobres do mundo: US$ 1,90 ou R$ 5,7 por dia. Em 2013, havia 767 milhões de pessoas na pobreza extrema, segundo a ONU. A família de Eva está entre elas. Os filhos dela estão entre as 67% de crianças extremamente pobres do município.

A situação dos Gonçalves da Silva só não é pior graças à ajuda dos pais de Eva, João Miranda da Silva e Maria Gonçalves da Silva, de 65 anos. Aposentados, eles não hesitam em ajudar os cinco filhos, 17 netos e 11 bisnetos. Era na casa deles que Eva estava com os filhos almoçando quando a reportagem do #Colabora chegou. Gentilmente, eles nos convidaram para o almoço. Recusamos para evitar uma divisão ainda maior do pouco que tinham. Comiam frango, feijão e farinha e assistiam à televisão na casa de pau a pique de apenas dois cômodos em uma rua de terra batida. “Não comemos verduras. Carne e frango, só de vez em quando”, diz Eva. Ela conta que o preço do quilo da carne é R$ 12. Faço as contas: se a família comesse um quilo de carne por dia, teria de desembolsar R$ 360 dos R$ 565 mensais, valor máximo que os Gonçalves da Silva conseguem ganhar quando são contratados para todos os bicos que se concretizam. Eva está apreensiva porque tinha duas clientes fixas: a mulher do prefeito e a mulher do ex-prefeito. Mas a primeira comprou uma máquina de lavar e dispensou seus serviços.

Na cidade devastada pela pobreza extrema, é surpreendente notar a existência de dois salões de beleza, pelo menos três lojas de roupas, uma locadora de DVDs e uma pousada. Marajá do Sena tem uma população estimada de 7.604 habitantes, mas 85,62% deles moram na zona rural. Quem, afinal, tem dinheiro para frequentar cabeleireiro na cidade mais pobre do Brasil? Os funcionários públicos e os aposentados, aponta o secretário de Administração, Elivando Pessoa Lima. No município, há 420 funcionários efetivos e comissionados, segundo a Secretaria de Administração ou 5,5% da população. Como não há banco nem caixa eletrônico, Lima se queixa que a maior parte do salário dos funcionários é gasto no município vizinho, Paulo Ramos, onde recebem.

Na praça central da cidade, uma ampla tenda de roupas itinerante, com peças masculinas, femininas e infantis, também nos intriga. É a primeira vez do vendedor ambulante Robson Teixeira Mendes em Marajá do Sena. Junto com uma equipe de três vendedores, ele costuma viajar por todo o estado, ficando dois dias em cada cidade. Pergunto se sabia que Marajá do Sena era a cidade mais pobre do país em renda: “Fiquei sabendo antes de vir para cá, mas viria mesmo assim”, garante. Não é à toa. São 14h e ele comemora os resultados: “Vendi R$ 2 mil”. Parte da venda, explica ele, foi garantida pelos próprios lojistas da cidade, que compraram as roupas para revenderem por estarem mais baratas, revela Robson. Na tenda, a promoção que mais atraía clientes era seis calcinhas por R$ 10.

A família Barbosa da Silva sobrevive com menos de R$ 700 por mês. O marido, conta ela, “trabalha na juquira”, ou seja, capinando o mato nas pastagens, por R$ 45 a diária. Mas o trabalho é eventual. Fora o Bolsa Família, os R$ 150 de aluguel e os bicos, eles plantam milho, feijão e abóbora. “Vivemos da roça. Nem eu nem minhas filhas nunca tivemos emprego fixo”, afirma Raimunda. “Só conseguimos mesmo o suficiente para comer”, afirma.

Nem tudo parece estar perdido. Antes de chegarmos à Marajá do Sena e descermos a derradeira ladeira de terra que torna o município praticamente inacessível, conhecemos Novo Marajá do Sena. O bairro, retrato do descaso da administração Roseana Sarney, onde veem-se as ruínas abandonadas do que um dia seria um hospital, começa a ser revigorado com a construção de habitações populares, de alvenaria, uma escola com seis salas de aula e um poço artesiano. O vigia do posto de saúde Cláudio Firmo da Costa, de 46 anos, nos acompanha até as vigas que dariam origem ao hospital, hoje cobertas pelo mato, e, em seguida, até a escola Sérgio Dutra Reis, que seria inaugurada no dia seguinte. Passamos pelas novas casas, já prontas e numeradas. O conjunto de melhorias faz parte do programa Mais IDH, do atual governo, sob a gestão de Flávio Dino, do PC do B. O objetivo é investir nos 30 municípios com o pior IDH do estado.

“A vantagem é que não temos violência aqui e todo mundo se conhece”, afirma o funcionário público, pai de dois filhos. De noite, ele trabalha no posto e, de dia, na roça que mantém com a mulher, onde plantam arroz, feijão e milho. Cláudio está na faixa da população considerada privilegiada diante da miséria em torno. Na prefeitura, ganha um salário mínimo. Entretanto, nem ele escapa do apartheid digital e transita entre os 64% da população brasileira com acesso à internet e os 36% sem. Explica-se: “Desse lado da rua, pega a internet. Do outro lado, onde fica a minha casa, não”.

Reportagem: Projeto Colabora

Edição: Redação

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